120 MANIAS E MODISMOS QUE MARCARAM OS ANOS 80





Uma das novelas de maior sucesso no final da década de 1 970 foi Água Viva, de Gilberto Braga. Com Menino do Rio, de Caetano Veloso, cantada por Baby Consuelo, como música tema, sua abertura era uma sucessão de cenas com praticantes de windsurf.

 

Composto apenas por uma prancha e uma vela, o windsurf foi um dos principais modismos daquele final de década. Esse tipo de esporte – ou passatempo, como queira – conquistou os jovens das cidades litorâneas.

 

A turma do asfalto aderiu em massa aos patins de quatro rodas. Foi uma mania tão intensa que até parques de diversões como o saudoso Playcenter construíram pistas de patinação. Rita Lee chegou a gravar um clipe em que aparece deslizando sobre essas quatro rodinhas. Uma das cenas do clipe da música Xanadu, com a diva Olivia Newton-John, é dominada por um grupo de patinadores.

 

Rita Lee foi uma das principais divas da música made in Brazil daquele período. Com um sucesso atrás do outro, a ex-integrante do grupo Os Mutantes era quase onipresente nas rádios e emissoras de TV. A música Chega Mais, por exemplo, foi tema de abertura de uma novela de mesmo nome.

 

Quando Água Viva começou a ser exibida, o windsurf há muito já estava em moda. Digamos que a ficção foi influenciada pela realidade. Fato semelhante ocorreu com Partido Alto, de Aguinaldo Silva e Glória Perez. A abertura mostrava um estilo de dança importado dos Estados Unidos e que varreu as grandes cidades brasileiras: o break. Também conhecido como breakdance, o estilo surgiu da cultura hip-hop das periferias norte-americanas.

 

Caso semelhante ocorreu na passagem dos anos 80 para os 90, quando outro gênero musical esteve na crista da onda: a lambada. Surgida na Região Norte, esse ritmo tipicamente brasileiro conquistou até os europeus. Cantores como Margareth Menezes e grupos como Kaoma chegaram a se apresentar nas grandes capitais do velho continente. O tema da abertura da novela Rainha da Sucata, de Silvio de Abreu, era justamente uma lambada cantada por ninguém menos que Sidney Magal.

 

Tentando renascer na cena musical brasileira, Sidney Magal aderiu à lambada e por um bom tempo preferiu ser chamado somente de Magal. Caso você não saiba, uma década antes ele fez um sucesso estrondoso encarnando um tipo cigano nos programas de TV. Com seu vozerio poderoso, fazia a plateia cantar em coro os sucessos Sandra Rosa Madalena e O Meu Sangue Ferve Por Você.

 

Além da lambada, os gêneros mais ouvidos pelos brasileiros naquele período foram a new wave, o tecnopop (uma variação da new wave), o heavy metal, a new age (ou música da nova era) e o rock brasileiro. Surgiram bandas que entraria para a história do rock feito no Brasil: Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Titãs, Capital Inicial, Ultraje a Rigor, Blitz e RPM.

 

As bandas com carreiras mais meteóricas foram Blitz e RPM. Sob o comando de Evandro Mesquita, a Blitz dominou as paradas de sucesso do início da década com a música Você Não Soube me Amar. O álbum As Aventuras da Blitz vendeu milhares de cópias. Mas nada comparado com o RPM. O conjunto de Paulo Ricardo e companhia lotava ginásios. Suas apresentações renderam o álbum Rádio Pirata ao Vivo, um dos poucos gravados ao vivo que fizeram história na música brasileira.

 

O Ultraje a rigor não chegou a fazer o mesmo sucesso do RPM, apesar de ter se tornado uma banda querida do público e da crítica. Com letras cheias de nonsense e hilárias, suas músicas foram cantadas de norte a sul. Pelado, uma da que fizeram mais sucesso, transformou-se em tema da abertura da novela Brega & Chique, de Silvio de Abreu.

 

A música de abertura da novela Nosso Louco Amor, de Gilberto Braga, ajudou a popularizar a banda Gang 90 e as Absurdetes, um dos ícones do rock brasileiro da década. O grupo Metrô popularizou-se com Ti-ti-Ti, composição de Rita Lee que abriu a novela de mesmo nome, escrita por Cassiano Gabus Mendes. Aliás, foi nessa novela que surgiu a marca de batom Boka Loka.

 

O batom Boka Loka saiu da ficção para o mundo real, onde teve boa popularidade. O mesmo ocorreu com o perfume Vereda Tropical, que saiu da novela de Carlos Lombardi para as prateleiras das lojas. Idem para os turbantes da personagem de Regina Duarte na novela Roque Santeiro, de Agnaldo Silva, com argumento de Dias Gomes. Fabricados por diversas marcas, eles tomaram as ruas do Brasil.

 

Era para Roque Santeiro ter estreado durante os anos 70 se não fosse a censura da época. A Globo foi obrigada a substituí-la por uma reprise-tampão de Selva de Pedra até a próxima produção ficar pronta. Mas a história da viúva “que foi sem nunca ter sido”, ou melhor, da viúva Porcina e do santo fajuto da cidade de Asa Branca, voltou para a TV 10 anos depois. E dessa vez com audiência espetacular.

 

Roque Santeiro foi uma das telenovelas de maior audiência da história. Milhões de pessoas acompanharam com empolgação as aventuras de Roque, o santo que ressuscitou dos mortos, e sua viúva de mentirinha. O álbum com a música-tema consagrou a dupla Sá & Guarabira.

 

Com suas músicas românticas, o grupo Roupa Nova abriu diversas produções para a TV. Uma delas foi a novela Elas por Elas. Assinada por Cassiano Gabus Mendes, ela foi uma das poucas que teve um personagem que ganhou produção própria: Mário Fofoca. O detetive particular fez tamanho sucesso que um ano depois protagonizou um seriado com suas aventuras. Situação um pouco parecida ocorreu com Dona Armênia, personagem de Rainha da Sucata. Interpretada pela atriz Aracy Balabanian, ela voltaria anos depois na novela Deus nos Acuda, com roteiro de Silvio de Abreu.

 

O cantor e compositor Ritchie nasceu na Inglaterra, mas foi no Brasil que conseguiu alavancar sua carreira. Tomou as paradas das rádios com as músicas Menina Veneno, A Vida Tem Dessas Coisas e Casanova (isso mesmo: um inglês cantando em português). Por sinal, Casanova abriu a novela Champagne, de Cassiano Gabus Mendes.

 

Como vimos, um dos grupos de maior popularidade nos anos 80 foi o RPM. Ele era capaz de atrair milhares de pessoas para os seus shows, mas nada como o Menudo. Os garotos porto-riquenhos varreram o país de norte a sul, sempre com estádios lotados. As adolescentes foram ao delírio, é claro. Compraram adesivos, álbuns de figurinhas, revistas, pôsteres, camisetas e o que mais havia sobre o grupo nas bancas de jornais e lojas.

 

Embora com menos alarde, o grupo norueguês A-ha foi o principal modismo do final dos anos 80. Suas músicas não paravam de tocar nas FMs. Outro grupo que também agitou a cena musical foi o Information Society, sempre com sucesso. E não podemos esquecer do Guns N’Roses que, com seu metal melódico, fez a cabeça de quase toda a geração que acompanhou a passagem da década de 80 para a seguinte.

 

Por falar em metal, o gênero bombou durante aqueles anos. O eterno mad man Ozzy Osbourne chegou a vender milhões de discos só nos Estados Unidos. Grupos como Iron Maiden, AC/DC, Whitesnake e Scorpions levaram os chamados “metaleiros” ao delírio. Os fãs de metal (lembrando que muitos preferiam ser chamados de headbangers) ganharam esse apelido durante a cobertura jornalística do primeiro Rock in Rio, realizado no início de 1 985. Além das bandas recém-citadas, o festival contou com a participação de músicos de diversos estilos. O Queen fez um show que entrou para a história. Quem viu, ainda que seja pelo YouTube, não esquecerá jamais.

 

Mas qual o álbum mais vendido no período entre 1 980 e 1 989? A resposta: Thriller, de Michael Jackson. Lançado no início da década, trata-se do disco mais vendido da história da indústria fonográfica. Quando estreou no Brasil, o clipe de Beat It deixou o público alvoroçado. Choveram pedidos para que fosse reprisado no Fantástico, o programa dominical da Globo. Situação semelhante ocorreu com a faixa tema do álbum. As pessoas nunca viram ou ouviram nada igual. O programa teve que reprisá-lo na semana seguinte.

 

A modelo Xuxa foi convidada pela extinta TV Manchete para apresentar um programa infantil. O Clube da Criança estreou com uma chuva de críticas. Diziam que ela não sabia lidar com o público infantil. Mas muitos tiveram que voltar atrás quando Xuxa trocou de emissora. Contratada pela Globo, ganhou um programa que levava o seu nome: Xou da Xuxa. O sucesso foi grande. Ou melhor, foi enorme. Pensando bem, foi estrondoso. As músicas infantis cantadas por ela viraram hits nas festinhas de aniversário. Xuxa vendeu milhões de discos. E como se não bastasse foi convidada para gravar clipes, fazer cinema…

 

He-man era o último desenho animado exibido na programação do Xou da Xuxa. A sua popularidade ajudou de certa forma um quarteto infantil chamado Trem da Alegria. Com a música He-Man, ele estourou com o refrão: “Eu tenho a força/Sou invencível/…Unidos venceremos a semente do mal”. O mesmo grupo lançou músicas sobre os Thundercats, Tartarugas Ninjas, Jaspion e Changeman. Devemos lembrar que o Trem da Alegria não foi o único grupo infantil a dominar as paradas, nem o principal.

 

O grupo infantil de maior prestígio foi a Turma do Balão Mágico. Com o quarteto Simony, Mike, Jairzinho e Tob, ele gravou sucessos como Amigos do Peito e Superfantástico (“Superfantático, o Balão Mágico/O Mundo fica bem mais divertido”). Na TV, comandaram um programa infantil com o mesmo nome do grupo, onde tinham o boneco Fofão como companheiro de “estripulias”. Quando saiu do ar, o Balão Mágico deu lugar ao Xou da Xuxa.

 

Entre as maiores emissoras de TV do mundo, a sempre poderosa Rede Globo lançou diversos modismos. Um dos mais inesquecíveis foi o MPB-Shell, um concurso musical que tentava resgatar o prestígio dos festivais musicais dos anos 60. Ele ajudou a impulsionar a carreira de alguns participantes. Guilherme Arantes, Tetê Espíndola, Osvaldo Montenegro, Raimundo Sodré, Joyce, Kleiton & Kledir, Lucinha Lins (que recebeu a maior vaia da história dos festivais por ter vencido Guilherme Arantes e seu hit Planeta Água).

 

Vários filmes do gênero musical foram lançados naqueles anos. Está certo que não foram produções de grande sucesso, mas lançaram músicas que entraram para sempre no imaginário de quem viveu aquele tempo. O filme Flashdance emplacou What a Feeling, de Irene Cara. Footloose lançou a música de mesmo nome, com Kenny Loggins. La Bamba conquistou as rádios com a música La Bamba, de Los Lobos. E Dirty Dance – Ritmo Quente, com She’s Like the Wind, de Patrick Swayze, e Time of my Life, de Bill Medley e Jenniffer Warnes. Time of Life é até hoje ensaida e exibida em muitos casamentos no Brasil e em outros países.

 

Por falar em cinema, convém lembrar como os filmes para adolescentes estiveram em moda. O primeiro grande campeão de bilheteria foi Os Caçadores da Arca Perdida. Em seguida vieram ET – O Extraterrestre, Os Goonies, Os Caça-fantasmas, Gremlins, De Volta para o Futuro, Cocoon, O Enigma da Pirâmide, O Milagre Veio do Espaço, Indiana Jones e o Templo da Perdição… Ainda tendo o público adolescente em vista, os grandes estúdios de Hollywood lançaram os filmes de ação O Exterminador do Futuro, Robocop, Rambo e suas inúmeras continuações. Lançaram também filmes de terror como Brinquedo Assassino, A Hora do Pesadelo, A Hora do Espanto, Uma Noite Alucinante e Sexta-Feira 13 (impossível contar quantas sequências esse filme possui).

 

Mas as produções campeãs de bilheteria foram todas brasileiras. Protagonizadas pelo quarteto cômico Didi, Dedé, Mussum e Zacarias, elas levaram milhões de crianças e adolescentes aos cinemas. Para quem não lembra, o quarteto integrava o programa Os Trapalhões, exibido nas noites de domingo da Rede Globo. Os filmes tinham tinham títulos que quase sempre começavam com “Os Trapalhões…”: Os Trapalhões na Serra Pelada, Os Trapalhões e o Mágico de Oróz, Os Trapalhões no Reino da Fantasia, Os Trapalhões e o Rei do Futebol e por aí vai. Uma das exceções foi A Princesa Xuxa e os Trapalhões.

 

Entre as personalidades mais citadas em jornais, revistas e emissoras de TV nunca é demais lembrar do piloto de Fórmula 1 Nelson Piquet, do também piloto Ayrton Senna, da transsexual Roberta Close (a primeira a posar nua para uma revista masculina, muito antes do surgimento do “orgulho trans”), do jogador de futebol Zico, da modelo Luma de Oliveira (eleita a mulher mais bonita do mundo) e das celebridades citadas nos parágrafos acima, ou seja, Xuxa, Michael Jackson, Rita Lee…

 

A TV lançou seriados que ficaram para sempre guardados na memória, a começar por Dallas. Tudo bem que não fez muito sucesso no Brasil, mas ele foi exibido durante anos, tanto aqui quanto em outras dezenas de nações. Entre as crianças e jovens, o preferidos foi Alf, o ETeimoso, com as aventuras de um alienígena um tanto atrapalhado. E o que dizer de Armação Ilimitada? Com os atores Kadu Moliterno e André De Biase nos papéis principais, Armação Ilimitada inovou com a linguagem de vídeoclipe e histórias que abordavam a realidade dos jovens que gostavam de esportes radicais.

 

Além de He-Man, as crianças se esbaldaram com o seguintes desenhos animados: Os Smurfs, Thundercats e Tartarugas Ninjas. Com exceção dos homens-gatos do planeta Thundera, todos foram adaptados para o cinema com personagens reais. Entre os seriados, elas gostaram particularmente dos japoneses Changeman e Jaspion.

 

Roque Santeiro foi uma novela excepcional. Mas não foi a única a conquistar os telespectadores. Que Rei Sou Eu, de Cassiano Gabus Mendes, é até os dias atuais uma das novelas mais assistidas do horário das sete da noite. Com temática ecológica e imagens de tirar o fôlego, Pantanal, de Benedito Ruy Barbosa, colocou a TV Manchete entre as líderes de audiência. Chegou a incomodar a Rede Globo. Mas foi Vale Tudo, de Gilberto Braga, que mais deu o que falar. Todos queriam saber quem matou a megera Odete Roitman, personagem da atriz Beatriz Segall. Tamanho foi o mistério que até uma marca de temperos lançou um concurso com prêmios para quem adivinhasse quem era o assassino.

 

Vamos falar de brinquedos? A primeira grande mania foi o brinquedo Genius, da estrela. Ele surgiu quase na mesma época do rubik, ou cubo mágico, um passatempo que conquistou crianças, jovens e adultos. O velho Telejogo foi deixado de lado com o surgimento do Atari e do Odissey, dois aparelhos de videogames de grande vendagem entre aqueles anos.

 

Um dos principais modismos do ano de 1 982 foi justamente a Copa do Mundo da Espanha. Com Zico, Sócrates, Falcão e outros craques, o time tinha tudo para voltar com a taça de campeão. A expectativa era grande. Albúns de figurinhas foram lançados. Músicas sobre a atuação chegaram ao cenário musical, mas… havia uma Itália no caminho. Derrotado, o “dream team” brasileiro voltou mais cedo para casa.

 

Não podíamos esquecer das sandálidas de plástico Melissa, do álbum de figurinhas Amar É, dos sorvetes Sem Nome, do livro O Analista de Bagé, dos brinquedos de montar da Revell, do Fuscão Preto, dos relógios com pulseiras coloridas, do vídeocassete e dos fiscais do Sarney. Com o lançamento do Plano Cruzado, que visava combater uma inflação estratosférica, ele mobilizou milhares de brasileiros prontos a denunciar aumentos abusivos de preços. Mas a inflação voltou com força, só recebendo um ferimento de morte quase 10 anos depois.

 

Imagem acima: álbum da Turma do Balão Mágico

 

 

 


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